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Mostrando postagens com o rótulo crônicas

Quando o banal deixa de ser banal

Existe algo de curioso em encontrar beleza no ordinário.  Há alguns meses, assisti ao belo Sonhos de Trem, filme fotografado pelo brasileiro Tomas Veloso. O longa é um espetáculo visual — inteiramente filmado em luz natural. A intenção é clara com essa opção, que para o cinema é muito mais difícil e complexa: mostrar beleza no real. E ele é eficiente na sua proposta. O mundo naturalmente é belo.  O mundo visto em Sonhos de Trem é, materialmente, o mesmo que encontramos todos os dias. Os mesmos cenários, a mesma simplicidade, a mesma matéria do cotidiano. Mas, pelas lentes de Veloso, tudo parece diferente.  E o que muda não é exatamente o mundo. É a forma de enxergá-lo. Um artista parece encontrar beleza a partir de um olhar único.  Eles têm a capacidade de perceber beleza onde muitos enxergam apenas rotina, banalidade ou dureza. Mas talvez isso não seja uma exclusividade deles.  Cada um de nós, à sua maneira, tem seu olhar individual para o mundo. E há algo de i...

O Brasil é para amadores

O que a tragédia no RS nos diz sobre nós, e o quanto a nossa maneira de ver o mundo é perigosa e suscetível a grandes falhas. Segundo meu conhecimento, a aviação comercial é uma das áreas que possui um protocolo de segurança extremamente eficiente e organizado. Quando ocorre um raro desastre aéreo, dificilmente se dá por uma única falha, mas por várias situações que, por um motivo ou outro, saíram do planejado e resultaram em acidentes. Obviamente ele não é isento de falhas, mas reduz enormemente esse risco. O exemplo da aviação, infelizmente não é visto em outras tantas áreas, onde parece que os cuidados com segurança e prevenção não são as principais prioridades. Uso como exemplo a indústria da alimentação e a gigantesca quantidade de ultraprocessados que hoje fazem parte da rotina de bilhões de pessoas. Não é difícil conectar que a saúde dos consumidores não é lá uma das principais preocupações dessas empresas. O Rio Grande do Sul está vivendo uma tragédia anunciada há muito tempo. ...

A Incrível História de Adaline

A Incrível História de Adaline (The Age of Adaline, 2015), é um melodrama convicto, que mistura viagem no tempo, astronomia, ficção e realidade. Uma história leve, que não pede uma visão mais apurada de seus personagens, mas agrada e simpatiza em seu tom. Na trama, Adaline é uma mulher que, após um acidente de carro, perde a capacidade de envelhecer, ficando “presa” aos seus 29 anos. O desenrolar da história traz a protagonista lutando para viver sua vida, ao mesmo tempo que esconde seu segredo do mundo. Fato este que a impede de manter relacionamentos duradouros, mudando-se de cidade a cada década. Diferente de outros filmes que abordam a questão de viagem no tempo, Adaline entende sua condição como uma maldição, como fator que a prende ao seu mundo, escondida, e sem a liberdade de revelar seu segredo aos outros. O filme não busca aprofundar-se muito na personalidade da protagonista, desenrolando-se como uma carona passageira por momentos de sua vida. E, assim como não b...

Volver

Falar de Almodóvar nunca é fácil. Uma das características do cineasta espanhol é seu atrevimento e coragem em propor nas telas seus conceitos e ideias. E é de atrevimento e coragem que se faz esse texto, ao tentar transpor em palavras um pouco de um dos filmes que mais aprecio em sua filmografia: Volver. Volver conta a história de Raimunda (Penélope Cruz), mulher casada e com uma filha de 14 anos, que ainda tenta superar a morte de sua mãe, enquanto cuida da tia. A personagem de Cruz, inclusive, é quem carrega o filme por completo e dá alma à trama. Cada cena da atriz renova o filme, que composto por um excelente roteiro, nunca deixa a história se esvair ou perder força. Não à toa, em muitas vezes vemos Penélope enquadrada ao centro da tela, tomando para si toda a sustentação do longa. Traduzindo essa percepção para a personagem Raimunda, é assim que ela também encara a sua vida. Uma vez que, mesmo com um casamento complicado, dificuldades financeiras crescentes e um passado...

Anomalisa

O problema de Anomalisa é que ele é um filme tão humano, mas tão humano, que incomoda de tão semelhante a realidade. E sim, estamos falando de uma animação em stop motion. Acontece que também estamos acostumados a ver no cinema a essência a vida, seus melhores momentos ou sua idealização. E isso faz com que quando ela é apresentada em sua forma crua, simples e... tediosa, não seja bem vista. Afinal, a magia do cinema não é justamente pular as partes chatas e mostrar o que realmente todos querem ver? Em Anomalisa, Michael Stone é um palestrante motivacional que passa por uma crise existencial e busca por algo diferente e que mude sua vida. Acompanhamos um dia de sua vida, durante uma estadia em Cincinnati, aonde fará uma palestra sobre técnicas de atendimento. O protagonista está infeliz, não se encontra no mundo e busca por algum “milagre” que o tire de um tédio insuportável. E desde o primeiro minuto de projeção somos jogados integralmente a este tédio. A proposta do diretor ...

21:05

Sábado, 21:05, Trecho Carazinho – Passo Fundo, Km-25 Depois de um dia cansativo, porém recompensador, a rotina de retornar para casa pela RS-285, mantém-se inalterada. A música no rádio anima os 45 km que separam partida de chegada. O dia já é quase noite quando as luzes do farol iluminam um sujeito solitário no meio do nada, seguido por um cachorro. O seu andar é lento e vagaroso, sem pressa e sem destino. O cachorro segue atrás, também a passos lentos, parecendo acompanhar a jornada de seu provável dono. A música parece não animar mais, o volume diminui e o silêncio toma conta. O dia até então foi animado, bonito e inspirador. Até aquele momento, onde aquela cena faz perder o sentido de todas as 21 horas passadas. Em minutos a escuridão tomaria conta, em minutos o frio chegaria mais forte, em minutos a chuva chegaria e em minutos a única luz a ser vista por aquele andarilho era a dos faróis dos carros que cortam seu caminho. Dos faróis que por segundos passam pela sua vi...

Divertida Mente (Inside Out) é uma viagem fantástica rumo ao autoconhecimento

O primeiro filme da Pixar, Toy Story, completa 20 anos esse ano. Toy Story foi mais do que o primeiro filme produzido em computação gráfica do cinema, a história de Woody e Buzz Lightyear representou a entrada da Pixar no segmento de animação e uma revolução no modo de fazer desenhos. Em vinte anos foram quinze filmes produzidos. Nenhum deles pode ser considerado um filme ruim, e no mínimo três deles, obras primas. E Inside Out, ou Divertida Mente no título em português, é um deles. A Pixar conseguiu criar um padrão tão alto de qualidade que qualquer filme mediano produzido por eles pode ser considerado um Dreamwor..., digo, um trabalho ruim. O estúdio reúne sete Oscars de melhor animação em nove disputados, sendo que em duas oportunidades disputou na categoria de melhor filme - Up! e Toy Story 3.                 Divertida Mente segue a linha dos filmes citados. É Pixar em sua melhor forma, abusand...

A meritocracia de Forrest Gump

“Minha mãe sempre dizia que milagres acontecem todo o dia. Tem gente que acha que não, mas é verdade” Forrest Gump Fiz o caminho inverso com Forrest Gump. Não o assisti nos anos 90, quando era badalado, sucesso de bilheteria e com seis Oscars no currículo. Assisti dez anos depois, numa Sessão da Tarde da Globo. O resultado foi um bom entretenimento, mas que nada reverenciava a admiração dada ao filme na então década passada. Dei uma segunda chance ao filme e refiz a experiência esses dias, com a intenção de analisar amplamente seu propósito e ideologia. A conclusão remeteu novamente a uma frase que senti na primeira vez em que vi Forrest: este filme me incomoda. Na história, Forrest Gump, o personagem vivido por Tom Hanks, é um rapaz com um Q.I abaixo da média e que, sentado em uma parada de ônibus, conta sua história de vida a desconhecidos por ali aparecem. A trajetória de Gump tem passagem crucial pela história recente dos Estados Unidos, colocando o personag...

Um pessimismo necessário

O exercício de ver cinema como arte é fascinante. No entanto, uma segunda função - ou um complemento a primeira -, é seu trabalho impecável de retratação da nossa realidade e como ferramenta antropológica e social. O cinema vem da fotografia, e assim como ela, imortaliza em imagem o que fomos, o que somos e palpita sobre o que seremos - ou o que queremos ser -. E cinema e fotografia, assim como qualquer outra arte, tem sua interpretação variada de acordo com o contexto a qual é inserida e a bagagem cultural de seu apreciador. Esta semana fui submetido a dois filmes diferentes, mas que assistidos em um intervalo de um dia revelaram grandes semelhanças e questionamentos. O primeiro é um documentário: “O Sal da Terra” (2014), dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado e que conta um pouco da história de Sebastião Salgado, o já consagrado fotógrafo brasileiro que viveu sua vida retratando o mundo em fotografias em preto e branco. Salgado se destaca pelo olhar sagaz de su...

10 anos da Sala de Cinema do UOL – ou a história mais incrível que já vivenciei

Em 2015 fez dez anos de um dos momentos mais curiosos na minha adolescência. Um casamento entre duas pessoas que jamais se conheceram pessoalmente e moravam a mais de 3.500 quilômetros de distância. Em 2005, quando a internet era uma novidade e um lugar ainda inóspito, onde seu acesso era permitido somente após a meia noite, por meio de uma conexão discada, encontrei terreno amigável nas salas de bate papo do site UOL. Morava em cidade pequena e estava começando a descobrir todo o fascínio dos filmes e do cinema. Sentia necessidade extrema de discutir com outras pessoas as experiências e vivências que os filmes me proporcionavam. Como lá quase ninguém compartilhava dos mesmos gostos, encontrei na internet lugar e pessoas para trocar ideias sobre a sétima arte. Foi curioso que cheguei a sala por intuição. Simplesmente acessei o site, vi o link do bate papo, cliquei e encontrei uma sala exclusiva para falar abertamente sobre cinema com mais de cinquenta pessoas. Na págin...