Passaram muitas coisas aqui dentro nesses últimos dias e semanas. Comecei e recomecei esse texto incontáveis vezes também. E a verdade é que não tem maneira fácil de iniciar essa escrita, talvez a mais difícil que já fiz. E não havendo, opto por deixar meu instinto conduzir o texto, e as palavras que mais gritam na minha mente hoje são legado e arte. Eu explico. Aos olhos de criança e de adulto, meu pai foi uma pessoa autosuficiente. Fazia absolutamente tudo aquilo em que se envolvia. Resolvia qualquer problema, falava sobre qualquer assunto, ouvia toda e qualquer pessoa, ajudava mesmo quem não conhecia sem pensar duas vezes. E enquanto esteve entre nós viveu várias vidas, a de pai, de irmão, de professor, de agricultor, de filho, de líder comunitário, de referência técnica, de amigo, de religioso, de conselheiro… E para cada uma delas, parecia que um novo lado dele se abria, ao qual possuía domínio invejável de todas as ferramentas e adaptação a contextos. Era o que hoje chamaría...
Existe algo de curioso em encontrar beleza no ordinário. Há alguns meses, assisti ao belo Sonhos de Trem, filme fotografado pelo brasileiro Tomas Veloso. O longa é um espetáculo visual — inteiramente filmado em luz natural. A intenção é clara com essa opção, que para o cinema é muito mais difícil e complexa: mostrar beleza no real. E ele é eficiente na sua proposta. O mundo naturalmente é belo. O mundo visto em Sonhos de Trem é, materialmente, o mesmo que encontramos todos os dias. Os mesmos cenários, a mesma simplicidade, a mesma matéria do cotidiano. Mas, pelas lentes de Veloso, tudo parece diferente. E o que muda não é exatamente o mundo. É a forma de enxergá-lo. Um artista parece encontrar beleza a partir de um olhar único. Eles têm a capacidade de perceber beleza onde muitos enxergam apenas rotina, banalidade ou dureza. Mas talvez isso não seja uma exclusividade deles. Cada um de nós, à sua maneira, tem seu olhar individual para o mundo. E há algo de i...