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Quando o banal deixa de ser banal


Existe algo de curioso em encontrar beleza no ordinário. 

Há alguns meses, assisti ao belo Sonhos de Trem, filme fotografado pelo brasileiro Tomas Veloso. O longa é um espetáculo visual — inteiramente filmado em luz natural. A intenção é clara com essa opção, que para o cinema é muito mais difícil e complexa: mostrar beleza no real. E ele é eficiente na sua proposta. O mundo naturalmente é belo. 

O mundo visto em Sonhos de Trem é, materialmente, o mesmo que encontramos todos os dias. Os mesmos cenários, a mesma simplicidade, a mesma matéria do cotidiano. Mas, pelas lentes de Veloso, tudo parece diferente. 

E o que muda não é exatamente o mundo. É a forma de enxergá-lo.

Um artista parece encontrar beleza a partir de um olhar único. 

Eles têm a capacidade de perceber beleza onde muitos enxergam apenas rotina, banalidade ou dureza. Mas talvez isso não seja uma exclusividade deles. 

Cada um de nós, à sua maneira, tem seu olhar individual para o mundo. E há algo de inspirador naqueles que conseguem enxergar a realidade por caminhos menos óbvios. 

Particularmente, me encanta quem consegue perceber beleza onde quase todos veem apenas banalidade.

E acredito que o amor, o prazer pela vida, tenha papel nisso. Talvez ele apenas ajuste nossas lentes. 

Uma refeição é uma refeição. Mas um jantar simples, caseiro, pode se tornar memorável junto àqueles que amamos.

Um jogo é apenas um jogo. Mas uma disputa esportiva ganha contornos épicos quando quem está em campo é alguém por quem torcemos. 

Uma tarefa é apenas uma tarefa. Mas o trabalho, quando existe envolvimento, cuidado e significado, deixa de ser obrigação e passa a carregar algo de criação.

O que transforma essas experiências talvez seja o afeto investido nelas. O cuidado, a dedicação, o envolvimento — ou qualquer outra palavra próxima do amor — parecem capazes de dar significado ao banal. 

Compartilhamos o mesmo mundo. Mas cada um vê mundos com lentes diferentes.

Talvez o mundo que Veloso filmou não fosse diferente do nosso. Talvez apenas tenha sido visto através das lentes de alguém profundamente apaixonado pelo que faz. 

E viver assim — enxergando o cotidiano com alguma dose de encantamento — parece oferecer uma vista muito melhor.

 

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