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O último adeus

 Passaram muitas coisas aqui dentro nesses últimos dias e semanas. Comecei e recomecei esse texto incontáveis vezes também. E a verdade é que não tem maneira fácil de iniciar essa escrita, talvez a mais difícil que já fiz. E não havendo, opto por deixar meu instinto conduzir o texto, e as palavras que mais gritam na minha mente hoje são legado e arte. Eu explico.


Aos olhos de criança e de adulto, meu pai foi uma pessoa autosuficiente. Fazia absolutamente tudo aquilo em que se envolvia. Resolvia qualquer problema, falava sobre qualquer assunto, ouvia toda e qualquer pessoa, ajudava mesmo quem não conhecia sem pensar duas vezes. E enquanto esteve entre nós viveu várias vidas, a de pai, de irmão, de professor, de agricultor, de filho, de líder comunitário, de referência técnica, de amigo, de religioso, de conselheiro… E para cada uma delas, parecia que um novo lado dele se abria, ao qual possuía domínio invejável de todas as ferramentas e adaptação a contextos. Era o que hoje chamaríamos de um profissional multidisciplinar. E para cada cenário que estava, adaptava-se física e internamente. Quem o conheceu como professor, não sabe como era como pai, quem o via na igreja, não o reconheceria como agricultor. Isso é natural do ser humano, nos adaptamos ao ambiente. Mas o que me faz trazer esse ponto, é que, independente do cenário, algumas impressões e modos nunca mudaram. Em todos, ele era sempre muito bem visto, respeitado e admirado. O nome dele, de certa forma, virou referência de alguém que, independente de onde e com quem está, está sempre disponível, pronto para ajudar, preocupado e próximo.


Minha casa vivia cheia de visitas, sempre tinha algum compromisso para ir à noite durante a semana, mesmo cumprindo uma agenda de três turnos.. Fazia amizade com todo mundo, sem exceção. Não aguentava ficar dez segundos no elevador sem puxar papo com o desconhecido do lado. Enquanto esteve no hospital, ia visitar outros pacientes, conversar, entender como estavam. Conhecia todos os enfermeiros, chamava pelo nome e sabia da família de todos. Não guardou muito dinheiro, mas nunca deixou de ajudar quem pedia.


E diante de todos eles, sempre demonstrou respeito e atenção e recebeu admiração e confiança.


Tá aí o legado. O meu pai teve papel social importante na cidade onde morou. Foi secretário da educação e diretor da escola estadual por muitos anos. Atuou em vários grupos e entidades da cidade. Ajudou a criar alguns e a manter outros. Mas isso é consequência, não a causa. No mundo de hoje muitas vezes colocamos o que foi feito à frente de como foi feito. E o legado verdadeiro, puro, está no como. É o como que transforma. Quantos que tem tanto hoje teriam uma consciência tranquila de contar como alcançaram o que tem sem omitir nada? O como se faz é o que inspira as pessoas, para o bem e para o mal. E pai, o teu legado de como fazer, que também é do teu pai e meu avô é o que estou levando adiante e é a tua herança: teus valores, teus princípios, tua ética, tua resiliência. O que me orgulha não é o professor ou o diretor de quem todos falam. É a forma como você se tornou essa pessoa.


Dito isso, você criou alguém muito diferente de você. Com a exceção do time de futebol, nossos gostos foram muito diferentes. Não puxei o interesse pela vida no campo, (inclusive, restringi a carne da minha vida, e você respeitou isso), fugi da cidade pequena, não sou a pessoa mais sociável do mundo, não segui o caminho lógico de carreira que você pensou, não sigo alguns preceitos de vida que você acreditava. Adoro viajar, coisa que você não se animava muito, e tenho um apreço por arte (cinema, música, literatura), que não compartilhamos. 


E é por ela, pela arte, que encaminho o encerramento deste texto. A arte para mim é uma forma de conexão e de empatia com diferentes mundos, diferentes pessoas e diferentes contextos. Há um poder inexplicável aí de se conectar com realidades que, antes de abrir um livro, começar um filme ou ouvir uma música, você nunca experimentou. A conclusão a que chego é que a arte para mim é um veículo de transporte para outras realidades - um veículo do qual você nunca precisou. Você já carregava isso naturalmente. Não precisava dessa “ajuda”. Você se sentava na roda com qualquer pessoa, ouvia qualquer realidade, compreendia qualquer situação, aconselhava diante de qualquer pedido e agia diante de qualquer necessidade. Se todos agissem assim, talvez teríamos um mundo mais justo e com menos conflitos.


Como não tenho esses superpoderes, quero me despedir por meio da arte que você fazia de forma natural, e que eu preciso dela como aliada para dizer. Pelo poder da arte de transformar situações coletivas e sentimentos reais e únicos, te digo que essa música apareceu para mim semanas antes da sua partida, quando você não era mais você, e me apoiou, no seu e no nosso momento mais difícil.


Lerei uma história pra você

A única diferença é que essa é verdadeira

O tempo já passou



Eu dobrei as suas roupas que estavam na cadeira

Espero que você durma bem, não tenha medo

O tempo já passou, então é isso.



Não sou seu filho, você não é meu pai

Somos apenas dois homens adultos se despedindo

Não precisamos perdoar, não precisamos esquecer

Conheço seus erros e você conhece os meus

E enquanto você está dormindo, tentarei te deixar orgulhoso

Então, papai, será que você não pode apenas fechar seus olhos?

Não tenha medo, é a minha vez

De afugentar os monstros



Durma por uma vida inteira

E respire uma última palavra

Você pode sentir a minha mão na sua

Serei o último, então deixarei uma luz acesa

Que não haja nenhuma escuridão em seu coração


Monster, James Blunt



Durma bem, pai. Obrigado por tudo. Amo você


Comentários

  1. Sinto muito, muito mesmo. Que teu pai encontre a paz que merece e que tu siga em frente com serenidade. Um abração.

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